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População das classes A e B que ficou em ‘home office’ e em isolamento no início da pandemia agora vai a festas, restaurantes e confraternizações, se infectando e transmitindo o novo coronavírus

Fila na entrada de um shopping center de São Paulo – Foto: Toni Pires/EL País

Foram quase seis meses trancada dentro de sua casa em Brasília. Desde o início da pandemia do novo coronavírus, em março, até outubro, a aposentada Vânia Carvalho de Mendonça, 71, não colocou o pé para fora da soleira da porta. “Até as compras no mercado quem fazia era o meu marido”, conta. Em outubro a situação da crise sanitária no Brasil parecia estar melhorando, com o número de mortes e casos diminuindo semana a semana. O aniversário do neto, que Vânia não via há quase um ano, fez com que ela quebrasse sua quarentena. Entrou em um avião e viajou até São Paulo para participar dos festejos. De quebra, foi a um jantar na casa de amigos do filho, com outros oito adultos e sete crianças. Dias depois a idosa estava internada na unidade de terapia intensiva no hospital Albert Einstein, na zona sul da capital paulista, recebendo oxigênio, situação que se estendeu por cinco dias.

O caso de Vânia não é exceção. Cada vez mais brasileiros das classes A e B que ficaram em quarentena no início da pandemia, contando com o privilégio do home office, chegam ao limite psicológico da tranca dentro de casa. A melhora dos números de contágios e mortes pela covid-19 e o relaxamento das restrições por parte do poder público, que liberou a abertura de bares e restaurantes, fez com que muitos isolados ganhassem as ruas pelo Brasil, muitas vezes sem o devido cuidado —como uso de máscara. De certa forma, a história se repete: o novo coronavírus chegou ao Brasil trazido por turistas de classe média que voltavam de férias na Europa, e agora encontra nesta mesma população terreno fértil novamente. “É possível afirmar que o início desta nova elevação do número de casos iniciou de novo pela classe A e B, assim como ocorreu em março. Mas logo foi seguida por um crescimento generalizado em todas as camadas da população”, afirma Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein.

Uma das consequências desta reabertura foi o aumento no número de casos da doença, que teve um reflexo direto na ocupação de leitos do sistema privado e público de saúde. No Albert Einstein, por exemplo, onde Vânia foi atendida, a média diária de pessoas internadas com covid-19 na UTI em outubro e novembro foi de 28. Nos primeiros dias de dezembro este número já está na casa dos 50 atendimentos (o hospital afirma que não trabalha com taxa de ocupação, pois remaneja leitos de acordo com a necessidade). “Quase tivemos que dobrar o número de leitos de covid-19”, afirma Klajner. Situação semelhante foi vista em outros hospitais particulares. Em 7 de dezembro o Sírio Libanês anunciou um plano de contingência para lidar com o aumento na procura por leitos voltados para pacientes com o novo coronavírus, e no Hospital do Coração a média móvel de internações pela doença — que leva em conta intervalos de sete dias — saltou de 17 em meados de outubro para 51 na última semana.

Já recuperada do susto, Vânia lamenta o ocorrido. “Eu me arrependo pelo lado de ter contraído o vírus. Me preveni durante meses e uma saidinha deu nisso. Mas emocionalmente eu precisava sair. E as crianças ficam pedindo, sabe? ‘Vovó, vem ver a gente!’. Aí você se deixa levar por essa parte emocional”, conta. Os sintomas da doença começaram a se manifestar dias após o jantar na casa de um amigo do filho. “Eu tive febre, muita dor de cabeça e no corpo, não tinha força nem pra falar. E aí veio a falta de ar, que me fez ser internada”, conta. Dos oito adultos presentes no encontro, seis testaram positivo para a doença, todos com sintomas leves e sem necessidade de internação.

Com as festas de fim de ano se aproximando, existe o temor por parte das autoridades que os números da doença no país explodam, tendo em vista o aumento de confraternizações e reuniões de amigos e familiares para celebrar o Natal e o Ano Novo. “Acho que as pessoas precisam ponderar o que é melhor: deixar de estar com seus familiares por um ano, um momento, e poder desfrutar destes momentos num futuro próximo, ou correr o risco de morrer e acabou”, diz Vânia.

Praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, lotada em 2 de outubro, apesar das restrições pela pandemia. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Sistema público também sob pressão

A rede privada não é a única que passa por um aumento no número de internações por covid-19. O Hospital Emílio Ribas, referência na área de infectologia, chegou a ter 100% dos leitos ocupados no início de dezembro. No dia 9 a taxa era de 90%. Também foi registrado aumento de internações em outras unidades públicas: a Unidade de Pronto Atendimento de Campo Limpo, no extremo sul de São Paulo, por exemplo, teve um aumento de 65% nos atendimentos de pessoas com covid-19.

Apesar da alta de casos, a Prefeitura informou na sexta-feira que a taxa de ocupação da rede é de 57% e 91% nas unidades contratadas. “Toda a rede está com um aumento importante, tanto no sistema público quanto privado”, afirma Ana Freitas Ribeiro, coordenadora do Serviço de Epidemiologia do Instituto de Infectologia do Hospital Emílio Ribas. Além das festas de fim de ano, ela acredita que a proximidade de uma vacina também tenha feito com que muitas pessoas baixassem a guarda com relação aos cuidados contra a doença. Além disso, a flexibilização da quarentena, com liberação de bares, levou mais jovens para as ruas, sem o devido distanciamento social.

Foi o que ocorreu com o advogado curitibano Paulo Kroeff Baggio Silva, 30. Ele ficou trabalhando remotamente de março até o início de setembro. “Saía só para fazer o básico, mercado, essas coisas”, afirma. Aos poucos foi ocorrendo uma “relaxada meio sutil”, que acompanhou a reabertura do comércio e a queda na ocupação dos leitos de UTI. Começou com um “encontrinho” com poucos amigos em sua casa, passando por um eventual almoço fora. E culminou com uma viagem para o Balneário de Camboriú, em Santa Catarina. “Lá era como se não houvesse pandemia. Festas e todo mundo sem máscara”. No começo de novembro vieram os primeiros sintomas de uma gripe leve, acompanhada da perda de paladar e olfato. Silva havia contraído a covid-19. Se recuperou dentro de algumas semanas, sem necessidade de internação.

Mas este comportamento de se expor a riscos desnecessários poderia ser mitigado com ações do poder público. “Nós apontamos o dedo para quem vai para festas. Claro, é perigoso. Mas você não vê as autoridades dizendo quais atividades podem ser feitas com menor risco. Eu não vou convencer um jovem que está indo pra balada a não ir, é pouco realista. Mas e se eu comunico que ele pode ir encontrar amigos em um parque, que é mais seguro?”, diz Vitor Mori, integrante do Observatório da Covid-19. Ele cobra uma política “de redução de danos” por parte dos governos. “Você não precisa do totalmente seguro, de ficar em casa trancado 24 horas por dia, para o totalmente inseguro, de ir a uma festa”, afirma.

Com informações do Jornal El País

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